domingo, 26 de março de 2017

Numa nuvem há três estrelas


Oi pai. Tenho andado ausente por aqui. São tempos difíceis na família e confesso que sorrir genuinamente necessita de um bom motivo, ultimamente. Mas um bom motivo mesmo! Senão, eu finjo.

As pessoas ficam menos tristes quando eu manifesto a falsa alegria. Se choro, ou fico séria, cabisbaixa, elas se preocupam, tentam me consolar, dizem palavras que soam sem sentido para mim. E acabo ficando mais abatida. Isolada às vezes. Por isso finjo. Não quero mais tristeza a minha volta. As minhas por si só já não dou conta. Disfarço o desgosto por mim e por elas.

E não faço isso por vontade, por gosto. Mas por que tenho buscado várias alternativas para driblar esses momentos nefastos. Mas o luto não é algo que se vai assim, depois de sete dias, um mês ou três da despedida. Ele vem para ficar e sim, só o tempo para fazer com que não sintamos mais dor, só boas lembranças.

Assim é contigo pai. Hoje eu consigo falar em ti, lembrar, citar um momento, na maioria das vezes, engraçado, sem dor ou lágrimas. Se choro nessas situações, é de rir. De alegria por ter tido a sorte de conviver contigo, de ser tua filha, ter tido teus ensinamentos.

Só que hoje, não estou conseguindo segurar. Quando já me habituava a viver sem a mãe ao meu lado, veio essa coisa doida que é o AVC Hemorrágico e levou a mana. Sabe, arrancou de mim, como se fosse erva daninha, que precisa puxar pela raiz, de uma só vez. Aquelas coisas que não se explica, que não se entende. Que não se entende...

Agora vocês são três na nuvem. Segura as pontas aí velho. Que para mim: chega! Está de bom tamanho.


sábado, 13 de agosto de 2016

Final de semana de saudade


Difícil não contar o tempo quando o sábado marca a passagem recente da mãe. Quatro meses pode parecer pouco. Mas ainda rasga o peito e faz correr uma lágrima quente.
Para não sentir por um, tem o Dia dos Pais. Merecida data por sinal. Ao menos para mim, cuja presença do meu Paiaço foi marcante por um tempo que avalio como pouco. Só 35 anos. Hoje, aos 41, já me conformo em ter ótimas lembranças de nossos momentos. Esta lágrima já não existe mais, só um sorriso tranquilo de amor.
É este sentimento que me faz regozijar com demonstrações tão lindas dos amigos e familiares, que compartilham de suas vivências paternas tão amorosas quanto a que vive. Parabéns queridos. Essa relação nos traz momentos de aprendizado e de amor que guardamos no peito e na memória, enquanto estivermos por aqui.
Que sigam assim, sempre compartilhando o melhor que há em vocês, com seus filhos, pais e avôs.
Feliz Dia dos Pais!

domingo, 31 de julho de 2016

Reverbera em mim


Pai, é domingo. Meu coração anda tranqüilo. Minha consciência está em paz. Estou bem, querido. E talvez até feliz, embora situações adversas para isso. Porém, não me sinto culpada.

Hoje, conversando com o Jarbas, ouvi tu falando... Me deu uma saudade de estar contigo. Ouvi-lo, mesmo que brevemente, vou te ouvir. Aquela entonação, aquele timbre, sabe pai, quando tu estavas em paz consigo e vinha com sua sabedoria paterna, a mesma que sempre contestava. Depois voltava atrás.

Ainda fico triste pai, ao lembrar que sou uma adulta órfã. Agosto inicia amanhã e em 13 dias serão quatro meses sem a mãe ao meu lado. Tu bem sabes que ela era pouco carinhosa, mas tinha um olhar tão doce comigo que me satisfazia. Me entendia, me acarinhava sem precisar tocar.

Essa semana lembrei do que minha ex-terapeuta frisou quando disse-lhe: “o que vou dizer para minha filha? Ela não terá o convívio do avô, a proteção, o carinho, a mesma relação que tive...” E a ela disse que não seria um problema para os meus filhos, eles não teriam a mesma falta que eu, pois não terão a ‘perda’ do que nunca tiveram.


É verdade. O sentimento de ausência é só meu, a saudade é só minha, a falta que a mãe me faz pertence a mim. Agora bem menos do que antes, mas ainda conjugo verbos com o pronome possessivo. A saudade reverbera em mim.