sábado, 29 de janeiro de 2011

Os netos felinos

Quatro Pês: Paz!

Agora temos duas crianças em casa, pai. A Brigitte Bardot, que é a sua preferida, e o Shazan, meu gato barriga verde e companheiro. De início José, a mãe conta que a Bri não deixava ninguém sentar na tua poltrona. Ela dormia e passava o dia ali, e quem se aproximasse para retirá-la, levava patada.

É pai. Quem diria que aquela gata peralta e que tu quase me fez devolver à zoonose da prefeitura iria sentir tanto assim a tua partida... Também, quem dera? Tu deste todos os mimos para ela. Depois de perder o medo de gatos, mais uma vez, ensinou-lhe as manias. Ela come só nuggets de ração e ninguém pode ir ao banheiro sem por um pouco no seu prato.

Lembro bem, meu velho, de quando eu tratava de um gato de rua. Foi quando tu perdeste o medo dos bichanos pela primeira vez, depois de ter se trancado – na infância - num quartinho escuro com um gato, que girava pelo rabo. O resultado não poderia ser outro: uma criança lanhada e traumatizada.

No início, o gato de rua entrava escondido e dormia no meu quarto. Ele ganhou o nome [e atendia] de Sofia Loren. Era alimentado por nós; o James, do segundo piso; e mais um vizinho do térreo. Em cada casa ele tinha um nome e atendia a todos. Mas era aqui que ele passava maior parte do tempo.

Também pai, quem resistiria a tanto carinho? Quando ele não estava aos meus pés, no quarto, sobre um tapete bem quentinho, acompanhando a escrita do meu trabalho de conclusão de curso; estava na sala, contigo, vendo filme e comendo gemada com vinho. Tu embebedavas o gato, pai, enquanto via tevê. Aliás, ele também gostava de ver televisão. Aquele gatinho era especial. Pena existir gente má nesse mundo – e mal amada.

Tu irias gostar do Shazan também, meu velho. Ele é impossível de terrível. Mas muito meigo e carente. Se tu soubesses pai, o quanto de choro meu esse gato ouviu calado, com uma expressão impotente no rosto... E o quanto eu o apertava quanto isso acontecia... Era para ele ter fugido de medo. Mas não! Ele me ama, e eu a ele. Assim como tu também gostava da Bri.

Pai, se dependesse do Sha, os dois felinos da casa viveriam em perfeita paz. Mas a Bri é hostil com ele até hoje. Creio, e a culpa é tua e da mãe, que ela tenha vivido, reinando, tempo demais conosco. Ela não dá arrego, velho. Só em momentos assim, de repouso, como nessa foto ai de cima. Ou seja: muito raro.

Shazan, depois do banho na petshop [a Bri fugiu pai, quando ouviu a palavra banho]

Brigitte Bardot, a gata porquinha... Mas linda!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Pastel com caldo de cana

Adoro pastel com caldo de cana. Tu sabes disso pai. Quando íamos ao centro de Porto Alegre, tu me levavas a uma das lancherias do Abrigo de Bondes da Praça XV de Novembro para comer. E claro: o pastel tinha que ter um ovo pela metade no recheio de carne.

Na época, a gente nem tava aí com as condições higiênicas do local. E eu até gostava das pombas [ratos de asas] que circulavam entre as pessoas. Só sabíamos que era bom demais tomar a garapa e comer o pastel. Algo construído na infância por ti, meu pai, e levado por mim em qualquer lugar que vá e enxergue essa iguaria popular.

Ontem, quando esperava a mãe do lado de fora de uma farmácia, olhei para o abrigo. Faz anos, a prefeitura municipal reformou o local. Tu deve lembrar disso José. Ainda estava aqui conosco. Mas, parece que agora eles querem implantar de volta uma linha de bonde, turístico, cuja uma das paradas está programada para ser ali. Onde na década de 30 era uma confluência deles.

Imagina pai, descer do bonde, em pleno século 21, e parar para tomar um caldo de cana e comer um pastel fresco, como nos velhos tempos? Delícia... Agora é torcer para que o projeto saia do papel. Sabe como é né pai, temos que esperar a vontade política dos governantes. Ou, quem sabe, a proposta complete ao menos um ano. Falta pouco e eles gostam de datas.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pesadelo

Pai, essa semana eu tive um sonho horrível. Um pesadelo, na verdade. Na ilusão, me via escrevendo pra ti, como faço agora, contando que agora a mãe estava indo ao teu encontro. E chorava pai. Pelas duas perdas. Era um rio de lágrimas e dor como acontece na vida real com as pessoas da região serrana do Rio de Janeiro.

Ah, tu deve saber. Afinal, aí do céu tu deve saber tudo com antecedência. Os fluminenses sofrem com uma catástrofe climática desde o início do ano. Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo foram devastadas pelo desmoronamento de áreas devido a chuva intensa e interminável.

José, fala com o grande pai aí e pede para ele manerar, por favor... Tanto com a seca na região da campanha aqui do Rio Grande do Sul, quanto com as chuvas lá do Sudeste. Por que com a mãe, eu sei, tu estás de olho. Zelando. No final, foi só um sonho mau.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Vergonha tricolor



Ih, pai... Teu time, para mim, que sou colorada comprada com saco de balas – tu bem sabes disso -, vai de mal a pior. Agora, o técnico [ou professor] é o Renato Portaluppi. Ou Renato Gaúcho. Aliás, aquele outro gaúcho, mais jovem e ainda jogador, também está nessa história que vou te contar.

Creio, que o futebol do clube tricolor deve ter alguma influência com numerologia, astrologia ou similares. Nos últimos meses, dois desportistas cujos nomes começam com a letra R, são alvo das páginas de esportes dos tablóides do Sul. Engraçado. Os mesmos caras também se intitulam Gaúcho. O outro criou até uma marca: R10.

Não sei qual novela é a maior e mais divertida para nós, colorados. Se a do técnico ou do jogador. Teu time pai, tirou o professor do Bahia, na segunda divisão, quando ainda corria risco de descer. Ele veio para o Sul e fez exigências de rei. Não poderia se diferente. Renato Gaúcho sempre foi arrogante, teve aquela empáfia no campo e agora fora dele.

Pai, o cara ganha quase meio milhão de reais, passagens aéreas e auxílio moradia. Quando chegou a Porto Alegre, os trouxas, digo, torcedores, foram recepcioná-lo no aeroporto. Até seu neto, o Marlon, saiu da aula correndo e foi pra lá, esperar o cara, que nem deu os “ares” para o público. A maior palhaçada José. Mas o pior de tudo foi hoje. Ele se diz cansado demais para acompanhar o time [reserva] nos jogos do gaúchão pelo interior. Afirma que é capaz de comandar a equipe a distância. Pior! Só quer treinar o plantel de segunda a sexta-feira... O fim da picada, velho!

Já o R10 teve participação especial num novelão de final de ano. O empresário e irmão do atleta, Roberto Assis, ficou leiloando o passe do guri para três times: Flamengo, Palmeiras e..., claro, o Grêmio. Nem preciso te dizer o final né pai?! Nariz de palhaço para todos vocês, gremistas. Eu diria que agora, o cara poderia se chamar Ronaldinho Carioca. É rubro negro.



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Parindo ausência

Ontem fez 9 meses. E hoje tem missa. Vou ser sincera contigo pai: não aguento mais ir em missas. Nunca fui fã desse ritiual. Embora, confesso, tenha feito as intenções no primeiro trimestre da tua partida. Porém, depois eu aprendi a conversar contigo. E agora também posso te escrever. Mas vou mesmo assim. E fico lá, tentando prestar atenção ao que o padre diz, enquanto a mãe reza.

Também conto os dias, pai. Eu conto os dias sim. Os meses... Aqui em casa todo mundo faz isso - em silêncio, mas faz. Talvez seja masoquismo; eu chamo de saudade, por que creio, não dói mais [tão forte], pai. Mas todos os dias 17, certamente, a criança que habita em nós troca de nome. E se chama Ausência. E em outros momentos ela volta a atender por saudade.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Cotidiano

Todo dia eu acordo com saudades, pai. Daí, lembro do teu jeitinho teimoso, que tenho igual; depois do balançar de ombros, que também puxei; das brigas por divergências de opinião e do gosto pela boemia. Bá, nunca houve uma filha tão parecida... E pai, agora sei que gosto do cotidiano também - e de, às vezes, quebrar as regras.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Éramos cinco...


Pertenço ao signo de Virgem. Como meu paiaço: José. Dizem os esotéricos, os místicos ou os curiosos, que as pessoas sob essa influência, quando analisadas segundo os personagens da Santa Ceia, correspondem a São Tomé. Parece bobagem minha, mas, do que não tenho certeza, a princípio preciso ver para crer.

Sou daquelas que quando vou à exposição de artes, sempre cometo o erro [e a falta de educação] de por o dedo, senão a mão inteira, na obra, para senti-la por completo. Talvez por isso também goste de abraçar as pessoas quando as encontro. O toque para afastar a incredulidade do que até os olhos possam me dizer o contrário.

Hoje sou mais crente. Em vários aspectos. Já falei isso no Cor de Rosa e Carvão, mas vou repetir. Há seis anos aproximadamente ganhei um mapa astral de um amigo e cliente. Fui com prazer ouvir a leitura do que os astros reservaram para mim ao nascer, além da interpretação dos trânsitos para o aquele momento.

Sobre mim [enfatizou o “oráculo] foi dito que sou uma pessoa voltada e com as raízes fincadas na família. Não acreditei. E o astrólogo, muito seguro de si e de seus conhecimentos, garantiu: “Então espere para ver. Vai ter um momento em que precisará voltar ao núcleo familiar para recarregar as energias, recuperar tuas forças”. Foi mais ou menos isso que ele disse. Eu, numa ansiedade pela independência [ou liberdade], lhe garanti que não precisava deles. No entanto, não demorou muito para que visse e acreditasse naquelas palavras. Ainda bem!

Por que só assim pude aproveitar um pouco mais do convívio com o meu velho. Ele não estava mais gozando de 100% de sua saúde, mas também pouco imaginava que partiria tão rapidamente e repentinamente. Afinal, depois da trombose, das pontes de safena, tudo estava estabilizado. Sossegado mesmo. Podíamos então usufruir do bom que a vida ainda pudesse nos proporcionar em família.

Setembro havia, então, virado o mês do reencontro dos filhos, parentes e amigos. No dia 7 ou no dia 11, tinha pandega aqui em casa, com “cerveja”. Porém, em 2010 não tivemos mais como escolher a melhor data para todos. Nos resta um único dia para festejar nesse período. Fiquei perneta. Ficamos sem chão. Meu paiaço não pôde esperar [sei lá o que] mais um pouco.
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Por isso, a exemplo do que faz a Cris Guerra no blog Para Francisco, farei aqui também, no E agora José? Só não sei para quem: se pra mim ou pra ti, pai. Vou ter que ver [e escrever] para crer.