quinta-feira, 24 de março de 2011

Vergonha

Pai, em alguns momentos eu me sinto envergonhada... Como posso ser assim e me equivocar tanto? Se estiver me vendo, velhinho, manda um sopro de esperança pra fortificar meu coração. E me desculpa por ficar tão vulnerável assim.

quarta-feira, 16 de março de 2011

E olha lá...

Pai, de repente me deu uma saudade aguda. Daquela que lembra o abraço de boas vindas, cada vez que chegava em casa, no amanhecer de uma viagem de 500 km. Eu te acordava velhinho e ganhava beijo babado também.

Sábado a Mara teve aqui em casa, pai. E ela disse algo que relutava a aceitar. Depois que vocês se vão, a dor da ausência demora a passar. Leva um tempo para a gente se habituar. No mínimo um ou dois anos. "E olha lá..."

sábado, 12 de março de 2011

Delírios


Depois dos 65 anos, meu pai teve várias internações [lembra né, velho?]. Numa delas, ele sentia tanta dor, que só morfina resolvia seu problema. O problema era o efeito colateral. Ele delirava pra caramba! Chegava até ser engraçado, se não fosse de cansar o lombo.

Numa dessas viagens químicas [deve ser a mesma sensação ou muito parecido com a viagem de um drogado] decidi me unir a ele. Não. Não roubei a farmacinha do hospital e nem usei outras drogas. Só a imaginação dele e a minha. Nossa, que loucura que foi...

Ondas gigantes e homenzinhos muito, mas muito pequenos invadiram o terraço do prédio ao lado. Várias vezes tive que mergulhar para não me afogar ou ser esmagada pela força do tsunami. Para não ser levada mar afora. Eu e meu pai.

Quando cansei, decidi surfar. O pai não gostou muito, mas já não aguentava mais fugir do que não dava para fugir. A melhor solução era "montar" na prancha e pegar a dita cuja. E quando o efeito do medicamento amenizou, os delírios passaram.

Pai, já não posso dizer o mesmo sobre a catástrofe natural que o Japão está vivendo nos últimos dias. Terremotos e tsunamis destruíram várias cidades daquele lado do Mundo. E quando tudo passou, foi diferente dos teus delírios, José. Milhares de pessoas morreram e outras dezenas de milhares estão desaparecidas. Os números são incertos, mas, mesmo assim; tristes e alarmantes.

E o pior meu velho, é que ainda há vazamentos radioativos das usinas... Será o fim do Mundo - meu velho -, do Japão ou só um prenúncio? E agora José?

segunda-feira, 7 de março de 2011

Vou ligar o som!

Pai, nesses meses todos tenho dormido até tarde no final de semana ou nos feriados. Coisa que adoro fazer quando não tenho absolutamente nada para fazer [o que é quase todos os dias]. Daí vem o teu filho, me acordar:

"Elaine? Levanta, vou ligar o som hein! Vou Ligar!!!"

Eu ignoro. Claro. Mas quer saber o que não dá para aguentar? Um barbado de 45 anos ouvindo funk, em alto e bom som, em pleno domingo ou feriado. O fim da picada, meu velho.

Pior! A coisa só acaba quando pulo da cama. É muito terrorismo...

domingo, 6 de março de 2011

Tempo, tempo, tempo...

Estamos em março meu velho. Daqui a 40 dias marca um ano de sua saída de cena. Olho pra trás e te vejo ali: sentadinho a pensar no futuro dos filhos, a estratejar a melhor maneira de trazer bem estar para todos. A sorrir e a cantar. A rir e a falar. Chorar. Calar.


sábado, 5 de março de 2011

Tristezas...

Tenho muito medo, mas um dos maiores é o trânsito. Fico tão insegura em relação a ele, em vários momentos. E creio, velho, tanto faz eu ser carona ou motorista, eu tremo igual. Há tanta gente inconsequente pilotando por aí... Sem respeito à vida, alheia ou a própria.

Quando tem feriados longos, como o de Carnaval e Páscoa, a gente já começa a ficar alerta. Muitos carros juntos, muitos jovens juntos, muitos motoristas novos também, nas mesmas estradas.

Tem aqueles que bebem muito, têm aqueles que podem ser vítimas de quem bebe muito. Tem a pressa. Ou só excesso de velocidade. Tem os impacientes, os intolerantes e os distraídos. Há vários fatores.

Na madrugada desse sábado pai, dois veículos grandes se chocaram. Um caminhão e um ônibus. Resultado: tragédia... E das grandes. Daquelas que geram muitas tristezas em diversos corações, agora abandonados.

Lembrei-me do acidente que sofreu enquanto trabalhava, pai. Um caminhoneiro, que admitiu ter dormido ao volante, entrou na traseira da Belina que dirigia. Um susto enorme meu velho. Mesmo que não tenha sofrido nada. Mas o fato de termos perdido o Vinicius há tão pouco tempo nos deixou sensível, na época. E temerários...

Hoje pai, sabe-se lá por que, eu rezo quando vou viajar. Peço proteção e a benção de quem me acompanha e me orienta sempre. E a ajuda de todos os espíritos de luz. Agora, incluo o senhor nessa prece também meu velho.

Não vou viajar neste carnaval, mas peço que auxilie os guias a manter motoristas e pedestres atentos nesse feriadão, meu pai. Chega de perdas e dor. É muito tristeza para um período onde deveria reinar somente a alegria.

terça-feira, 1 de março de 2011

O resultado das urnas


Pai, não te contei. Sabe quem é o presidente da República agora? Não. Claro que não! É a Dilma [Vana] Roussef, pai.

Essa mesma que tu estás pensando: ex secretária de estado de Minas, Energia e Comunicação. Também ex secretária da Fazenda de Porto Alegre e ex ministra das Minas e Energia. E o que consideraria pior no currículo pessoal dela [e até político], por algum motivo que desconheço, ex esposa de Carlos Araújo.

De certo tu já a levou no banco de trás do carro que trabalhava. Tu carregava todo mundo naquele Opalão, de cor azul estranho, naquela caminhonetona da mesma cor, e depois na Belina ou F1000 branca. Deve ter levado a secretária de estado também. Hoje presidente do Brasil.

Tinha história não é Paiaço, por trás daqueles volantes... Segredos de Estado, com certeza. E não contou para a gente. Nunca. Pena, por que adoro segredos, principalmente de gente grande.

Tu costumava dizer que tua função era dirigir, levar os caras aonde eles queriam, sem ouvir, falar, sem interferir nos negócios. Velho sábio... e motorista de confiança e requisitado da diretoria da companhia.

É pai. Tu diria que agora os tempos são outros. Mesmo com essa tua veia socialista, de operário, de democrático trabalhista. Na verdade, tu é que nem deveriam ser, pensar e agir – politicamente - todos os juízes desse país. No estilo: se é bom pro Brasil, é bom pra ti. Não é meu velho?
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p.s.: Ah, tava quase esquecendo. O nosso problema [dos esquerdistas] é um vice peemedebista, José. Seja aonde for que estiveres meu velho, senta. E acredita nos teus olhos. Tem uma coligação nunca imaginado antes na história política desse país. Esdrúxula. É mesmo Michel Temer lá no Palácio da Alvorada, ao lado da ex guerrilheira...