sábado, 12 de março de 2011

Delírios


Depois dos 65 anos, meu pai teve várias internações [lembra né, velho?]. Numa delas, ele sentia tanta dor, que só morfina resolvia seu problema. O problema era o efeito colateral. Ele delirava pra caramba! Chegava até ser engraçado, se não fosse de cansar o lombo.

Numa dessas viagens químicas [deve ser a mesma sensação ou muito parecido com a viagem de um drogado] decidi me unir a ele. Não. Não roubei a farmacinha do hospital e nem usei outras drogas. Só a imaginação dele e a minha. Nossa, que loucura que foi...

Ondas gigantes e homenzinhos muito, mas muito pequenos invadiram o terraço do prédio ao lado. Várias vezes tive que mergulhar para não me afogar ou ser esmagada pela força do tsunami. Para não ser levada mar afora. Eu e meu pai.

Quando cansei, decidi surfar. O pai não gostou muito, mas já não aguentava mais fugir do que não dava para fugir. A melhor solução era "montar" na prancha e pegar a dita cuja. E quando o efeito do medicamento amenizou, os delírios passaram.

Pai, já não posso dizer o mesmo sobre a catástrofe natural que o Japão está vivendo nos últimos dias. Terremotos e tsunamis destruíram várias cidades daquele lado do Mundo. E quando tudo passou, foi diferente dos teus delírios, José. Milhares de pessoas morreram e outras dezenas de milhares estão desaparecidas. Os números são incertos, mas, mesmo assim; tristes e alarmantes.

E o pior meu velho, é que ainda há vazamentos radioativos das usinas... Será o fim do Mundo - meu velho -, do Japão ou só um prenúncio? E agora José?