sábado, 16 de julho de 2011

Sem culpas

Por muito tempo eu sentia culpa. Mas logo percebi que não tinha sido por minha causa. Mesmo assim, a percepção foi lenta, difícil e por muito tempo fiquei com um aperto no meu coração de que a responsabilidade, ou pior, a irresponsabilidade que causou a tua partida, meu pai, teria sido minha. Afinal, eu fiquei aquele sábado todinho ao teu lado, zelando pela tua saúde.

Hoje eu sei que ninguém teve culpa. Era a tua hora, meu velho. Chegava ao fim um sofrimento que só tu sabias ao certo o que lhe custava. Terminava um período de dor, antes que outro, maior ainda, se iniciasse. Deus escreve certo por linhas tortas, de verdade!

Também agradeço a Ele, e as entidades de luz as quais creio, por mais um dia. Nem era para eu estar na cidade. Era para estar sozinha, por mais um final de semana, 500 quilômetros longe de ti. Mas graças a eles eu tive a oportunidade de me despedir. De passar o dia todo ao teu lado, falando de tudo e de todos, inclusive. De rir, chorar e repreender; dividir teus anseios, aliviar o teu peito...

Porém, confesso meu Paiaço, que esse alívio, essa culpa, só partiu de mim meses depois. Mesmo o médico tendo dito, esclarecido, a princípio, as possíveis causas da morte. É impressionante como a gente se abalada com a partida dos nossos amores...

Hoje eu sei que tu estás bem, meu pai. Longe, mas bem. Jogando futebol, na posição de goleiro, num gramado tão verde, nunca visto antes por olhos mundanos. Dançando de rodopiar, de fazer piruetas, de sorriso torto, naqueles passos inusitados e tímidos, mas sempre fazendo bonito. Dirigindo tua caminhonete, no “braço”, como sempre fez.

Meu pai, já parei de contar o tempo, mas de nada adiantou. Continuo sentindo a tua falta. Demais!