terça-feira, 1 de novembro de 2011

Convenções

Finados. Quem precisa de uma data para lembrar seus mortos? Pessoas que nos foram queridas, amadas, nunca são esquecidas. Estão sempre na memória e no nosso coração. E a saudade, essa ingrata, não nos deixa esquecer por um só momento, que quem ocupava um espaço cativo em nosso peito, agora não está mais conosco. Conhece outro plano e possui outra massa corpórea, que não essa casca feia que insistimos em maltratar diariamente.
Hoje, parece que todos se sentem obrigados a visitar túmulos vazios. Espanar a lápide. Trocar os vasos de flores secas por um novinho. Mas esquece que até essas plantas precisam ser regadas frequentemente para continuar enfeitando o lugar que jazem os amigos, os pais, os tios, os primos, os avós ou até mesmo os filhos. Lugar que falsamente habitam nossos queridos. Talvez, para os parentes mais sabidos, a oferta de flores artificiais. Mas, até mesmo essas, juntam pó.
Prefiro, então, prestar - digamos - homenagem aos meus mortos fazendo reverência as minhas memórias. E elas são muitas. De alegrias densas, felicidades intensas, discussões ruidosas, afrontas juvenis, de problemas compartilhados, de desabafos, de perdões, de mimos, de parabenizações. São permanentes. Bonitas em sua maioria. Feinhas em algumas rixas. E normais no dia a dia que tivemos em vida.
Eu, ao menos, não preciso do 2 de novembro para lembrar meu Paiaço. Eu lembro dele todas as semanas, em várias circunstâncias, em momentos de conversas, de reza. Lembro a cada dia 17, pois tenho o péssimo hábito de contar o tempo em que estamos distantes. Lembro, agora, a cada Reveillon; no 28 de fevereiro; a cada Carnaval; a cada Páscoa; a cada 7 de setembro; a cada 11 de setembro; no Dia das Crianças; a cada 1 e 8 de dezembro; a cada Natal. Pra quem ama, é quase todos os dias.
Para quem, assim como eu, tem muitos motivos para lembrar seus mortos sempre, hoje não significa nada. Só convenções. E elas não nos interessam mais.