sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Aparecida

Hoje é dia de Nossa Senhora Aparecida. Tua santa de devoção, meu pai. Por acaso fui até a igreja, com a Jana, aquela guria que acreditava ser mal educada só por que chegava gritando aqui em casa. Ela não é mal educada, Paiaço, mas adora fazer um bafo na rua, está sempre metida em confusão. Até em frente a máquina do cafezinho ela causa atrito.
Enfim, ela veio aqui em casa. Conversamos, rezamos, conversamos mais um pouco, comemos e seguimos com nossa rotina. Mas, em frente a Nossa Senhora, enquanto orávamos, eu pedi, agradeci e enviei uma mensagem. Agora que está aí, perto da santa negra, sei que pode me ouvir. Ela não me negaria esse contato. Sei bem...

Direitos ao invés de uma data

Eu não sou uma pessoa despida de preconceitos. Deveria. Mas não sei como. Por isso, pessoas desdentadas ainda me arrepiam os pelos da coluna cervical. E homens velhos não me atraem por que já estão maduros demais. Sem falar nos magrelos... Sem chances! No mais, estou sou zona livre de rótulos. Eu acho...
Antes de meu pai ser cadeirante, eu não tinha preconceito nenhum com portadores de deficiências. Muito menos depois. Sempre fui solidária a causas de pessoas mudas, cegas, deficientes intelectuais, físicos... Não seria diferente com meu pai, após ele amputar as pernas.
Ontem, 11 de outubro, foi a data alusiva ao Deficiente Físico. Fiquei refletindo comigo sobre minha postura nos últimos 30 meses e fiquei um pouco chocada. Depois que o Paiaço se foi, fiquei sem coragem de conviver com um cadeirante. Não tenho tato, delicadeza, sensibilidade suficiente para prestar apoio, se necessário, a quem possa precisar de mim. Não é por aversão. É por medo. Medo de que eu não saiba o que fazer, caso peçam meu apoio, e de ainda piorar o quadro clínico.
Uma bobagem por sinal. Os cadeirantes são tão descolados. Entram e saem de ônibus com uma facilidade. Descem e sobem lombas com destreza. Que, por Deus, nenhum precisou de ajuda minha até então.
De repente, esse medo todo de fazer mal a quem já deve ter passado por muitas situações desagradáveis venha pelo fato de ter derrubado meu pai duas vezes, empurrando a sua cadeira. Minha indelicadeza, impaciência se sobrepujaram nessas ocasiões. Certamente. E um quase fiz meu pai beijar o paralelepípedo em duas situações diferentes. Dias de tensão fiquei depois, de tanta energia e força e agilidade que impus para minimizar a queda. Além disso, acho que o trauma também ficou. Ao menos para mim.
Hoje, olho com receio para os cadeirantes. E mantenho distância. Sinto-me perigosa demais para ficar perto deles. Ao mesmo tempo, invisto outro olhar: o de admiração. Por isso, a todos os deficientes físicos, envio o meu abraço carinho. Vocês vencem uma batalha diariamente e o prêmio não deveria ser apenas um dia, mas uma porção total de direitos respeitados.